No último dia 5 de novembro, uma réplica muito imprecisa do 14bis original
fracassou num vôo comemorativo em Paris, enquanto outra, bem mais cuidadosa,
costuma voar sem problemas. Por que a réplica cuidadosa decola e as cópias
ficam no chão?

Piloto brasileiro Danielo Fuchs iria apresentar sua réplica
A resposta é simples: o 14bis é algo diferente e cuidadosamente equilibrado.
É o estado da arte de 1906. Juntou o que havia de mais avançado e foi feito com
um estudo detalhado do equilíbrio. Ele é minimal: não há nada supérfluo. Quando
se tenta inovar, se quebra a cara. Melhorar o 14bis, com outros materiais,
outros comandos etc., leva a um desequilíbrio, e o avião não voa. Já respeitar o
que foi feito em 1906 leva a um avião que voa.

Após percorrer 150 metros, no entanto, a aeronave quebrou parte da asa e
não levantou vôo.
O dia 12 de novembro de 1906 é a data em que os dois primeiros recordes
homologados pela Federação Aeronáutica Internacional foram batidos: distância
(220 m voados) e velocidade. O 14bis foi o primeiro avião que foi capaz de
decolar e deu aos outros inventores a chave de um dos problemas cruciais da
aviação: como transferir o equilíbrio no momento de transição, quando as forças
que o chão faz sobre a aeronave vão sendo transferidas por forças produzidas
pelo fluxo de ar. Essa transição é mágica e dificílima de entender, pois a
forças do ar são “transparentes”. Não se vê o ponto de apoio do avião.

Apresentação ocorreu no campo de Bagatelle, onde Santos Dumont fez seu
primeiro vôo há cem anos.
É essa a contribuição de Santos-Dumont e por isso todos os outros inventores
começaram a decolar e a voar em 1907: Blériot, Voisin, Curtiss, Farman,
Esnault-Pelterie...

Antes do vexame, o ex-coronel da Aeronáutica Danilo Fuchs posou para fotos
com sua réplica do 14 bis.
A diferença entre a visão desses inventores e a visão dos irmãos Wright (ou do
também americano Samuel Langley) estava no fato de que os primeiros queriam o
avião completo, um meio de transporte, que poderia ser auto-suficiente. Já os
Wright achavam que o avião seria um esporte ou teria um uso militar. A decolagem
não era um ponto importante. Importante era controlar o vôo. Langley pensava do
mesmo jeito e por isso projetou o Aerodrome lançado por catapulta. O futuro
mostrou que eles estavam errados.

Antes de quebrar, a cópia da famosa aeronave do aviador brasileiro foi
admirada pelos franceses.
Henrique Lins de Barros é físico do Centro Brasileiro de
Pesquisas Físicas e autor de diversos livros sobre Santos-Dumont e a invenção do
vôo, entre eles "Desafio de Voar" (Metalivros).